A importância de um intestino saudável

Há muito tempo se sabe que os microrganismos presentes no intestino humano desempenham um importante papel na saúde digestiva. Contudo, investigações mais recentes indicam que as bactérias intestinais podem igualmente estar relacionadas com outros aspectos de saúde, incluindo obesidade e saúde metabólica e até mesmo o desenvolvimento de câncer.

A microflora intestinal é a população de micróbios que vivem nos intestinos humanos. Inúmeras evidências sustentam a noção de que a microflora intestinal e o seu genoma (o microbioma) desempenham um papel no desenvolvimento e fisiologia humanos. As funções relacionadas com o microbioma dependem de muitos fatores do estilo de vida, que, por sua vez, ajudam a determinar o estado de saúde de uma pessoa e o risco de desenvolver distúrbios relacionados com a alimentação e o cérebro.

Nos seres humanos e mamíferos, a aquisição de micróbios intestinais não ocorre aleatoriamente e é altamente dependente de fatores do hospedeiro, estímulos ambientais e de regras de auto-sobrevivência exercidas pelos próprios micróbios. Quando nascemos, nosso intestino é desprovido de qualquer microorganismo, sendo dito “estéril”. A primeira população de bactérias que irá colonizá-lo é proveniente do trajeto de parto, no caso do parto vaginal, uma vez que na cesária não há nenhum contato com flora de bactérias saudáveis. Após esse início de colonização, o próximo contato será com as bactérias provenientes do leite materno, sendo neste caso, mais de 700 tipos de microorganismos responsáveis pela colonização do trato digestivo do recém-nascido. Por isso, o estímulo ao parto vaginal e a amamentação devem ser preconizados pelos obstetras uma vez que esse contato inicial com uma flora saudável é fundamental para o posterior amadurecimento do trato digestivo da criança. Uma vez totalmente desenvolvida, a microbiota intestinal torna-se um órgão “essencial” que fornece muitas funções vitais para o anfitrião. No entanto, estabilidade desta interação entre hospedeiro e bactéria está sendo ameaçada por mudanças drásticas no ambiente, dieta e estilo de vida ao longo dos últimos 50-100 anos que quase certamente reformulou o microbioma intestinal humano.

Aumento do índice de partos cesários, pouco tempo de amamentação com leite materno e aumento do uso de fórmulas lácteas, uso indiscriminado de antibióticos e outros medicamentos que matam não só as bactérias ruins, mas as boas também, aumento do consumo de produtos industrializados que inflamam o intestino e selecionam negativamente as bactérias boas em detrimento das ruins que passam a colonizar o trato digestivo, provocando gases, inflamação e inchaço. O desequilíbrio da relação hospedeiro-micróbio pode, então, levar ao caos homeostático, possivelmente explicando o aumento da incidência e prevalência de muitas doenças que se fundiram com uma frequência alarmante na idade moderna.

Perturbações resultantes das alterações hospedeiro-microbiota intestinal podem levar respostas alteradas do hospedeiro que aumentam o risco de processos patogênicos e promovem diversas doenças, tais como as doenças inflamatórias do intestino, intolerâncias alimentares, cânceres, diabetes, obesidade, autismo e asma. Atualmente, existe uma falta de conhecimento pormenorizado do papel do microbioma intestinal na saúde e no bem-estar.

O conhecimento aprofundado do microbioma intestinal poderia conduzir ao desenvolvimento de intervenções alimentares, que permitiriam um maior controle das funções desta microbiota, prevenindo distúrbios relacionados com a alimentação e comportamentais. Tendo em conta os atuais desafios e limitações da terapia genética, abordagens que podem remodelar o microbioma intestinal representam uma estratégia razoável para restabelecer o equilíbrio entre hospedeiro e micróbios.

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